Em uma sociedade em que os jovens rejeitados são destinados a terem seus corpos reduzidos a pedaços, três fugitivos lutam contra o Sistema que os “fragmentaria”. Unidos pelo acaso e pelo desespero, esses improváveis companheiros fazem uma alucinante viagem pelo país, conscientes de que suas vidas estão em jogo. Se conseguirem sobreviver até completarem 18 anos, estarão salvos. No entanto, cada parte de seus corpos – desde as mãos até o coração – é caçada por um sistema ensandecido. Talvez 18 anos pareça muito, muito longe.

Connor, Risa e Lev. Três adolescentes que têm uma única coisa em comum: estão sendo enviados para a fragmentação. Connor é um jovem com alguns problemas comportamentais e seus pais estão fartos disso. Desse modo, assinam a papelada que concede ao governo levar o garoto para um dos campos de colheita do país. Ou seja, eles não possuem mais direitos legais sobre o filho.

Risa é uma musicista talentosa que cresceu tutelada pelo governo. Em outras palavras, a garota não tem família e foi mantida num orfanato por tempo o suficiente para que tivesse idade para ser fragmentada. E sua hora chegou. Não havia nada que ela, ou alguém, pudesse fazer para salvá-la de seu destino cruel (ou não?).

Lev é um dízimo. Uma criança gerada única e exclusivamente para ser, literalmente, doada para a Fragmentação por famílias com alto poder aquisitivo e, digamos, com costumes religiosos. Sendo assim, ele sempre soube que seria entregue aos campos e, um dia antes de partir, teve uma grande festa de despedida com direito a tudo que um garoto da idade dele pode querer. Mas será que ele tinha convicção de que estava realmente preparado para isso? Para doar sua vida para que outras pessoas vivam?

Ninguém sabe como acontece. Ninguém sabe como é feita. A colheita dos fragmentários é um ritual médico secreto que fica confinado às paredes de cada clínica de colheita da nação. Sob esse aspecto, não é diferente da própria morte, pois ninguém sabe que mistérios jazem além daquelas portas secretas.

Fragmentados pode ser definido em uma única palavra: Impactante. O começo não é muito animador, mas conforme a leitura avança a história vai tomando proporções incríveis e num ritmo frenético que é impossível parar de ler. Há muitos temas polêmicos, como religião e aborto, o que faz com que tenhamos opiniões conflitantes e fiquemos impactados em certas partes do livro.

O enredo gira em torno da Lei da Vida, na qual as mulheres não podem cometer o aborto, mas têm direito a decisão de, num futuro próximo, doarem essas crianças “indesejadas” para a Fragmentação (eles chamam de abortar retroativamente), para que as partes de seus corpos sirvam com o propósito exclusivo de salvar vidas. Porque, segundo o governo, “tecnicamente” elas não estariam morrendo, mas permanecendo vivas em outras pessoas.

Meio bizarro, não é? No entanto, o autor usou dados verídicos registrados em uma matéria da BBC News, publicada em 2006, na qual relata que um hospital maternidade ucraniano cometia essa prática com bebês. Os registros em vídeos de uma ativista que teve acesso às autopsias dos corpos exumados das crianças, mostravam que os órgãos, incluindo o cérebro, haviam sido removidos e, algumas delas, estavam desmembradas.

Connor, Risa e Lev enfrentam desafios, sofrem, lutam a todo custo para sobreviver e, no final, arcam com as consequências de suas escolhas. É impossível não se solidarizar com a causa deles, não se chocar com a monstruosidade que as pessoas são capazes de cometer e se surpreender com a força que descobrimos ter quando queremos, a todo custo, sobreviver. Mesmo quando um deles nos irrita, não tem como não torcer a favor. O anseio visceral pela vida é mais forte. Prevalece.

Mesmo sendo uma história de ficção, Fragmentados não deixa de ser um retrato do cruel mercado negro do tráfico de órgãos, uma vez que somente quem pode pagar é que recebe um órgão ou um membro oriundo da fragmentação. Esse é um livro muito forte, que mexeu bastante comigo, que gerou uma certa revolta e que me deixou bastante reflexiva. É muito importante salvas vidas, mas quando isso deixa de ser “uma missão” e começa a ser “um negócio” a coisa muda de figura. Será?

Ah, mas essas pessoas seriam abortadas, e agora estão salvando outras vidas. Não! Não temos esse direito de decidir quem vive, quem morre e o porquê. Ou temos? Viram como gera opiniões fortes? Pois é. Fragmentados não é MAIS UMA distopia. Leia, se emocione, se revolte... Reflita! Mesmo que demore a pegar o ritmo, continue porque vale muito à pena. Eu adorei esse livro e não vejo a hora de ler a continuação. O final me quebrou. Sério. Juntei os caquinhos e fiquei uns três dias sem pegar em outro livro. Hahaha! Leiam assim que puderem.

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Beijão,