"Hoje é o aniversário de Leonard Peacock. Também é o dia em que ele saiu de casa com uma arma na mochila. Porque é hoje que ele vai matar o ex-melhor amigo e depois se suicidar com a P-38 que foi do avô, a pistola do Reich. Mas antes ele quer encontrar e se despedir das quatro pessoas mais importantes de sua vida: Walt, o vizinho obcecado por filmes de Humphrey Bogart; Baback, que estuda na mesma escola que ele e é um virtuose do violino; Lauren, a garota cristã de quem ele gosta, e Herr Silverman, o professor que está agora ensinando à turma sobre o Holocausto. Encontro após encontro, conversando com cada uma dessas pessoas, o jovem ao poucos revela seus segredos, mas o relógio não para: até o fim do dia Leonard estará morto. " – SKOOB

Eu sempre acreditei que certos livros precisam te escolher, e por alguma razão misteriosa só fazem sentido quando lidos no momento certo. Aqui está a prova mais recente dessa ~teoria~.


Li “Perdão, Leonard Peacock” em meados de 2015 e no dia seguinte não fazia ideia do que tinha lido. Antes de sentar para escrever qualquer comentário sobre ele fui fazendo outras leituras e ele ficou meio invisível em meio a outros livros na minha estante.

Esse ano enquanto separava livros para o desapego peguei “Perdão, Leonard Peacock” e não consegui lembrar absolutamente nada da história. Decidi que iria relê-lo antes de passá-lo adiante. Ainda bem que ele não foi direto para a lista de desapegos, tamanha a preciosidade contida em cada uma das suas páginas e que eu iria viver sem conhecer (ou lembrar?).

É difícil descrever a quantidade de sentimentos que esse livro é capaz de despertar. Matthew Quick deve ter várias “personalidades” enquanto escritor, e reservou aquela mais talentosa para escrever “Perdão, Leonard Peacock”, pois a escrita dele aqui em nada me lembrou “O lado bom da vida”, que foi uma leitura bem mediana e com pouca emoção.


Conhecemos Leonard no dia do seu aniversário de 18 anos, o dia em que tudo vai mudar. Talvez ele apareça nos noticiários, seja manchete do jornal e talvez as pessoas que o conheciam se sintam responsáveis pelos atos dele.

O peso que Leonard vem carregando sobre os ombros vêm minando seu psicológico há anos, e agora ele sente que está exausto demais para continuar. Sem ter ninguém para dividir esse fardo, no dia de seu aniversário ele resolve deixar sua marca no mundo, matando o ex melhor amigo e se suicidando em seguida.

Durante o dia acompanhamos as visitas que Leonard faz a quatro pessoas especiais, praticamente as únicas com as quais ele tem uma relação de afeto, e os presentes que ele dá a cada uma delas. Vamos conhecendo Leonard (quase) profundamente, e a narrativa revela pistas sobre o seu grande segredo, que permanece envolto em mistério até o final do livro e é um grande influenciador do desequilíbrio emocional do garoto.


Os questionamentos que Leonard levanta são interessantíssimos e extremamente lúcidos, principalmente a cerca da capacidade humana de vestir personagens para esconder suas verdadeiras personalidades (horríveis).

“ – Então por que nos faz estudar personagens como Hamlet, heróis, se não devemos agir como eles? Se devemos nos preocupar com pontos e cartas de candidatura à faculdade e tudo mais? Fazer o que todo mundo está fazendo?” – pág. 62
O projeto gráfico do livro tem pequenos detalhes que fazem a diferença na leitura, como as quebras de linearidade através de disposições alternativas de texto, não só o tradicional justificado. Esse recurso casou muito bem com os momentos de confusão do personagem principal e me dei conta do quão raro é encontrar livros de romance com uma diagramação que saia do convencional.

Matthew utiliza notas de rodapé para complementar a história, e algumas delas realmente funcionam muito bem. Contudo, aquelas mais extensas que prosseguiam na próxima página acabaram por quebrar um pouco do ritmo do enredo. Não é um detalhe que chega a incomodar, mas eu não sou a maior fã de notas de rodapé extensas.
“Você já pensou em todas as noites que viveu e das quais não consegue se lembrar de nada? Noites tão comuns que seu cérebro simplesmente não se dá o trabalho de registrar. Centenas, talvez milhares de noites passam sem serem registradas pela nossa memória. Isso não deixa você maluco? Imaginar que sua mente pode ter registrado só as noites erradas?” – nota de roda pé número 42, pág. 110
A história conta com personagens chave, que mesmo não sendo descritos detalhadamente, têm sua importância na vida de Leonard. Quem mais chama a atenção acaba sendo seu professor de história, Herr Silverman, que faz por Leonard o que nem sua mãe tenta: se importar com ele. E os diálogos entre o garoto e o professor são marcantes.
“Resumindo, Herr Silverman diz que podemos ser humanos e monstros ao mesmo tempo, que ambas as possibilidades estão em todos nós.” – pág. 96
Não é preciso ter depressão para ter medo ou ansiedade, para se perguntar em algum momento da vida se você vai se encaixar no mundo. Se as coisas realmente vão dar certo, se você vai conseguir um emprego, se você vai conhecer alguém, se você vai conseguir lidar com as responsabilidades... Às vezes os questionamentos são tantos que se acaba por duvidar do próprio valor.
“– Acontecer o quê?
– Não deixar o mundo destruí-lo. Essa é uma batalha diária.” – pág. 187
É isso que Matthew Quick tenta nos dizer através de Leonard e de sua batalha, que é possível continuar lutando, e que ter alguém em quem confiar pode ajudar quem precisa emergir da própria escuridão. Leituras assim mudam a perspectiva que você tem da vida, da solidão, da depressão.
“Eu gostaria de me sentir bem todo o tempo – de ter a capacidade de me sentar e funcionar sem sentir tanto a pressão, sem sentir como se o sangue fosse jorrar de meus olhos e de meus dedos dos pés e das mãos caso eu não faça alguma coisa.” – pág. 206
 Uma das melhores (re) leituras até agora, com certeza.



Depois de todo esse textão, agora quero saber de você: curtiu a resenha? Tem interesse de ler o livro? Já leu? Conta tudo! :D