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Álbum de figurinhas: vínculos além do futebol

Por Romances e Leituras · · 6 min de leitura
Álbum de figurinhas: vínculos além do futebol
Álbum de figurinhas: vínculos além do futebol

Na porta das bancas, no intervalo da escola, em mesas improvisadas de praça de alimentação e agora até em grupos organizados nas redes sociais, existe uma cena que se repete a cada Copa do Mundo. Pessoas de idades diferentes seguram pequenos montes de figurinhas, espalham repetidas sobre a mesa e começam um ritual simples. “Tenho essa”, “Falta aquela”, “Troca comigo?”. Em poucos minutos, desconhecidos conversam como se já se conhecessem há anos.

Existe algo curioso no álbum de figurinhas, ele atravessa gerações sem perder força. Pais que já colecionaram na infância apresentam aos filhos a lógica das trocas, dos pacotinhos e da busca pela figurinha rara. Avós acompanham tabelas, aprendem nomes de jogadores e ajudam a organizar páginas. Crianças negociam com adultos de igual para igual. Durante algumas semanas, o álbum cria um idioma comum entre pessoas que talvez não encontrassem outro assunto capaz de aproximá-las.

A força dessa experiência passa pelo objeto, mas não se limita a ele. A figurinha funciona quase como uma desculpa para encontros que dificilmente aconteceriam da mesma forma. Em época de Copa, a busca por completar o álbum rompe barreiras sociais, aproxima vizinhos, movimenta famílias inteiras e cria pequenas comunidades temporárias em torno de uma tarefa coletiva.

O psicanalista e neuropsicólogo Jorge Guedes explica que o colecionismo mobiliza dimensões muito profundas da experiência humana. “O colecionismo mobiliza tanto circuitos neurológicos ligados à recompensa quanto dimensões simbólicas profundas do psiquismo. Do ponto de vista neuropsicológico, cada nova aquisição ativa o sistema dopaminérgico, associado à motivação e ao prazer. Já na perspectiva psicanalítica, colecionar pode representar uma tentativa de organizar o mundo interno, dar sentido ao tempo e construir continuidade psíquica. Mesmo objetos simples, como figurinhas, passam a carregar valor afetivo, funcionando como marcos de experiência, pertencimento e identidade.”

Há também uma dimensão emocional construída pelo próprio funcionamento da coleção. Abrir um pacote nunca é um gesto totalmente previsível. Existe expectativa, frustração, surpresa, insistência. E isso ajuda a explicar por que o hábito permanece tão envolvente mesmo na vida adulta. A psicóloga e terapeuta comportamental Lívia Barreto Silva observa que esse processo ativa mecanismos importantes de recompensa e vínculo emocional. “A cada nova figurinha adquirida ou troca realizada, a pessoa experimenta pequenas recompensas emocionais, o que aumenta a probabilidade de continuar engajada no comportamento. Além disso, o colecionismo costuma se associar a pensamentos e significados pessoais, como ‘isso me conecta com momentos bons’ ou ‘isso é parte de quem eu sou’, o que fortalece o vínculo com a atividade. Também ajuda a estruturar o comportamento, criando rotina, metas claras e sensação de progresso.”

Para além do prazer do colecionismo, as figurinhas têm um diferencial que se agarra nas emoções: elas guardam fases da vida. Muita gente consegue lembrar exatamente onde estava quando conseguiu aquela figurinha difícil ou quem ajudou a completar determinada página. Algumas memórias parecem pequenas vistas de fora, mas permanecem intactas por décadas. O álbum também serve como uma espécie de mídia física, como uma revista ou um disco que marca uma época. A diferença é que os álbuns sempre marcam o período de Copa, que por si só é memorável por toda mobilização mundial e por isso se tornou capaz de criar memórias inesquecíveis compartilhadas.

O que torna o universo das figurinhas especialmente afetivo é que quase nada nele acontece sozinho. Diferente de outras coleções mais individuais, completar um álbum costuma depender do outro. É preciso trocar, negociar, pedir ajuda, circular pela cidade atrás da peça que falta. Em muitos casos, a figurinha rara aparece justamente pelas mãos de alguém desconhecido. Durante as Copas, essa lógica ganha uma dimensão coletiva difícil de reproduzir em outros contextos. Pessoas que talvez nunca dividissem uma conversa passam a compartilhar mesas cheias de envelopes abertos. Crianças aprendem a negociar com adultos. Adultos redescobrem brincadeiras que não praticavam havia décadas. O ambiente competitivo do futebol se transforma em convivência.

Existe também uma horizontalidade rara nesses encontros. Pouco importa profissão, idade ou condição financeira quando alguém encontra a figurinha que o outro procura há semanas. O álbum cria pequenas redes de colaboração em torno de um interesse compartilhado. Em muitas cidades, pontos de troca acabam virando espaços permanentes de encontro ao longo da Copa. Há quem vá para trocar figurinhas e permaneça horas conversando. Essas trocas ajudam a construir vínculos que ultrapassam o próprio evento esportivo. Famílias inteiras passam a acompanhar juntas a evolução do álbum. Amigos organizam encontros para abrir pacotes coletivamente. Pais encontram uma forma concreta de compartilhar memórias da própria infância com os filhos sem transformar isso em discurso nostálgico. A experiência acontece na prática, sentados lado a lado, comparando repetidas sobre a mesa.

Lívia entende que parte dessa força vem da nostalgia associada ao hábito. “Quando o adulto retoma o hábito de colecionar, ele reativa essas redes cognitivas, com pensamentos como ‘esse é um momento simples’ ou ‘isso me faz bem’, o que tende a gerar respostas emocionais de conforto e redução de estresse. Esse tipo de experiência também pode funcionar como estratégia de regulação emocional, ajudando a contrabalancear pensamentos mais rígidos ou exigentes do cotidiano. Não é apenas reviver o passado, mas acessar repertórios emocionais que estavam menos ativados.” Essa memória afetiva não aparece necessariamente de maneira grandiosa. Às vezes ela surge em detalhes muito específicos: o barulho do pacote sendo aberto, o cheiro do álbum novo, a atenção rígida para colar tudo retinho, a pilha de repetidas crescendo.

Ao contrário de muitos hábitos contemporâneos marcados pelo isolamento das telas, o álbum exige presença. Exige encontro. Mesmo quando as trocas começam em grupos online, elas quase sempre terminam em uma mesa compartilhada, em alguém mostrando a coleção, em crianças correndo entre adultos enquanto procuram a figurinha que falta. Existe ainda algo simbólico no próprio ato de completar o álbum. Poucos objetos traduzem tão bem a ideia de percurso. O álbum começa cheio de espaços vazios e, aos poucos, vai ganhando forma até se tornar inteiro. Cada figurinha colada carrega tempo, insistência e encontros acumulados ao longo do caminho. “Todo o percurso fica associado a interações e momentos específicos, o que amplia o significado emocional do resultado final. Não é só o fim, mas tudo o que foi construído ao longo do caminho”, afirma Lívia.

Jorge amplia essa percepção ao olhar para o significado subjetivo desse fechamento. “Completar um álbum pode evocar satisfação, orgulho, alívio e até uma sensação de identidade consolidada. É uma experiência que simboliza persistência, conquista e organização. Em um nível mais profundo, pode representar a ideia de ‘inteireza’, algo que começa fragmentado e se torna completo.” Talvez seja por isso que tantas pessoas guardem álbuns antigos mesmo depois que a Copa termina. Eles deixam de ser apenas uma coleção de jogadores e resultados esportivos. Tornam-se um registro afetivo de um período da vida e das pessoas que estavam por perto enquanto cada página era preenchida.

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