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Brasil: Força criativa para brilhar no mundo

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Brasil: Força criativa para brilhar no mundo
Brasil: Força criativa para brilhar no mundo

O Brasil, apesar de suas fraturas profundas, nunca parou de criar com originalidade e força para alcançar um lugar ao sol no mapa-múndi. A afirmação é do jornalista Claudio Leal, doutor em história, teoria e crítica de cinema pela ECA-USP.

No sábado, 13 de junho, às 19h (horário local), quando a seleção brasileira masculina de futebol entrar em campo no estádio MetLife, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, milhões de brasileiros se unirão em torno de um objetivo: a conquista do hexacampeonato da Copa do Mundo.

A cada quatro anos, a Copa é o momento em que milhões de brasileiros se veem num espelho. A imagem refletida define se o país está por cima da carne seca ou se é apenas um bando de vira-latas incapazes de confiar no próprio taco.

Em 31 de maio de 1958, a revista Manchete Esportiva publicou uma crônica de Nelson Rodrigues com a seguinte frase: "Em suma: temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de 'complexo de vira-latas'." No parágrafo seguinte, o cronista esclareceu: "Por 'complexo de vira-latas' entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol".

Para Nelson Rodrigues, bastaria estar com o caneco em mãos para o jogo mudar. "O brasileiro tem de si mesmo uma nova imagem, ele já se vê na generosa totalidade de suas imensas virtudes pessoais e humanas."

Contradições tipo exportação

"A beleza nada fácil de suas contradições é o que o Brasil tem a oferecer", afirma Claudio Leal. "Uma das maiores delas é a convivência de uma cultura popular de alto nível, capaz de ser exportada sem 'vira-latismo', com o cotidiano do horror político, da concentração de renda e da violência."

Exemplos recentes dessa exportação não faltam. No cinema, em menos de dois anos, "Ainda Estou Aqui" venceu o Oscar de melhor filme internacional, e "O Agente Secreto" foi indicado em diversas categorias. A vitória veio no Globo de Ouro. Na música, Caetano e Bethânia venceram o Grammy de Melhor Álbum de Música Global. Na literatura, a escritora Ana Paula Maia está entre os seis finalistas do International Booker Prize, um dos troféus literários mais prestigiosos do mundo. Nas artes plásticas, a pintora Marina Perez Simão figura em 85º lugar no Hiscox Artist Top 100.

No Global Soft Power Index 2026, o Brasil subiu duas posições na classificação geral entre 193 países e passou a figurar no top 30 no ranking global. Em 2025, o Festival Internacional de Criatividade Cannes Lions concedeu ao Brasil o título de Creative Country of the Year, sendo a primeira vez que um país recebeu essa homenagem. Também em Cannes, o Brasil foi anunciado como o País de Honra da edição 2025 do Marché du Film.

Na área da moda e da beleza, a Granado conta com dez lojas próprias no exterior, em países como França, Inglaterra, Portugal e Estados Unidos. A Farm opera lojas nos EUA, França, Itália, Dubai, Argentina e México.

Criatividade, suor e lágrimas

"Sem dúvida, a cultura brasileira de maior força ainda deve muito à combinação conflituosa, mas dinâmica, de elementos culturais africanos, indígenas e ibéricos", afirma Leal. "Hoje, tanto as artes como a indústria da beleza e bem-estar não podem ficar alheias às mudanças na sociedade do consumo e à emergência de vozes políticas negras, indígenas, femininas e LGBTQIAPN+ que aprofundaram a compreensão do que é belo e brasileiro."

Julio Ludemir, idealizador da Festa Literária das Periferias (Flup), pondera que, apesar da excelência dos filmes de Walter Salles e Kleber Mendonça Filho, "estamos falando de dois homens brancos heterossexuais, de um Brasil muito particular". "Eu acho que, por dialogar com a pujança cultural do país, o Brasil periférico, negro e indígena vai ter muito mais chances de sucesso internacional do que o Brasil do Walter Salles."

Essas chances passam, segundo ele, por políticas de Estado que promovam o intercâmbio cultural. "Os estrangeiros amam o Brasil sem saber exatamente quem somos", diz Ludemir. "Não sabem, por exemplo, que somos um grande país negro, que temos Conceição Evaristo, Beatriz Nascimento e Abdias do Nascimento."

O historiador e antropólogo Marlon Marcos, professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), afirma que a difusão internacional de elementos periféricos já aconteceu em outros momentos. "A literatura de Jorge Amado ganhou o mundo, nos anos 1940 e 1950, falando de uma periferia baiana. O Cinema Novo foi acusado de estetizar a pobreza para gringo ver. O que acontece atualmente é que estamos entendendo com mais força que a favela produz cultura, arte e filosofias."

Fica a pergunta: o Brasil valoriza internamente o que produz ou só celebra quando algo é aplaudido por outros países? "O espírito colonial ainda nos define, pois só nos celebramos quando somos avaliados pelo olhar estrangeiro", diz Marlon Marcos.

Claudio Leal complementa: "Não há como desconsiderar o impacto da projeção mundial do futebol, do cinema, da música, da literatura e das artes plásticas na mentalidade brasileira. Trata-se de um orgulho íntimo que nos faz pensar nas possibilidades do país."