Brasil: força criativa rumo ao mundo

O Brasil, apesar de suas profundas fraturas sociais, nunca parou de criar com originalidade e força para alcançar um lugar de destaque no cenário mundial. Essa é a reflexão central de um artigo publicado na revista Vida Simples, que analisa a cultura e a criatividade do país.
No próximo sábado, 13 de junho, às 19h (horário local), a seleção brasileira masculina de futebol entrará em campo no estádio MetLife, em Nova Jersey, nos Estados Unidos. Milhões de brasileiros se unirão para torcer pelo hexacampeonato na Copa do Mundo de 2026. O evento, que ocorre a cada quatro anos, funciona como um espelho para o país, refletindo a autoestima nacional.
O jornalista Claudio Leal, doutor em história, teoria e crítica de cinema pela ECA-USP, afirma que a maior virtude do Brasil é a beleza de suas contradições. Ele destaca a convivência entre uma cultura popular de alto nível, exportada sem complexo de inferioridade, e o cotidiano de horror político, concentração de renda e violência.
Exemplos recentes dessa exportação cultural são vários. No cinema, "Ainda Estou Aqui" venceu o Oscar de melhor filme internacional, e "O Agente Secreto" foi indicado em diversas categorias, vencendo o Globo de Ouro. Na música, Caetano Veloso e Maria Bethânia venceram o Grammy de Melhor Álbum de Música Global. Na literatura, a escritora Ana Paula Maia está entre os seis finalistas do International Booker Prize. Nas artes plásticas, a pintora Marina Perez Simão figura em 85º lugar no Hiscox Artist Top 100.
No ranking Global Soft Power Index 2026, o Brasil subiu duas posições, figurando no top 30 entre 193 países. Em 2025, o Festival Internacional de Criatividade Cannes Lions concedeu ao Brasil o título de Creative Country of the Year, a primeira vez que um país recebe essa homenagem. Em Cannes, o Brasil também foi anunciado como o País de Honra da edição 2025 do Marché du Film, o maior mercado cinematográfico do mundo.
Na área da moda e beleza, a Granado, empresa centenária, conta com dez lojas próprias no exterior, em países como França, Inglaterra, Portugal e Estados Unidos, e planeja expandir. A Farm, com lojas nos EUA, França, Itália, Dubai, Argentina e México, consolidou-se como uma marca global da moda brasileira.
Para Claudio Leal, a cultura brasileira de maior força ainda deve muito à combinação conflituosa, mas dinâmica, de elementos culturais africanos, indígenas e ibéricos. Ele ressalta que as artes e a indústria da beleza não podem ficar alheias às mudanças na sociedade de consumo e à emergência de vozes políticas negras, indígenas, femininas e LGBTQIAPN+, que aprofundaram a compreensão do que é belo e brasileiro.
Julio Ludemir, idealizador da Festa Literária das Periferias (Flup), pondera que, apesar da excelência de filmes como os de Walter Salles e Kleber Mendonça Filho, eles representam um Brasil muito particular, de dois homens brancos heterossexuais. Para ele, o Brasil periférico, negro e indígena terá mais chances de sucesso internacional, desde que haja políticas de Estado que promovam o intercâmbio cultural e um planejamento de longo prazo.
O historiador e antropólogo Marlon Marcos, professor da Unilab, lembra que a difusão internacional de elementos periféricos já aconteceu antes, como com a literatura de Jorge Amado, que falava de uma periferia baiana, e o Cinema Novo, acusado de estetizar a pobreza. Ele afirma que o que ocorre agora é um entendimento mais forte de que a favela produz cultura, arte e filosofias.
Fica a pergunta: o Brasil valoriza internamente o que produz ou só celebra quando algo é aplaudido por outros países? Marlon Marcos acredita que o espírito colonial ainda define o país, que só se celebra quando avaliado pelo olhar estrangeiro. Claudio Leal complementa que o impacto da projeção mundial do futebol, cinema, música, literatura e artes plásticas gera um orgulho íntimo que faz pensar nas possibilidades do país, tanto as realizadas quanto as não cumpridas.


