Música e bem-estar: o que a ciência revela

O neurocientista Daniel J. Levitin, professor da Universidade McGill, no Canadá, reúne décadas de pesquisas no livro "A cura pela música" para explicar como a música influencia a memória, as emoções, o movimento e o bem-estar. Antes de se dedicar à ciência, Levitin trabalhou como produtor e engenheiro de som na indústria musical, o que dá ao livro uma perspectiva diferente dos trabalhos acadêmicos convencionais.
Quando uma pessoa ouve música, o cérebro não processa o som de forma isolada. A audição ativa simultaneamente redes que normalmente funcionam separadas: o córtex auditivo, o hipocampo (memória), a amígdala (emoções), o cerebelo e o sistema motor (ritmo) e o sistema dopaminérgico (prazer). O cérebro também antecipa o que vai acontecer na música. Quando a expectativa é confirmada ou surpreendida de forma coerente, o sistema de recompensa é ativado, gerando prazer e, em casos intensos, arrepios.
O livro traz relatos de pacientes com Alzheimer em estágio avançado que, mesmo sem reconhecer familiares ou lembrar de eventos recentes, conseguem cantar músicas inteiras da juventude. Segundo Levitin, a memória musical depende de circuitos que permanecem preservados por mais tempo que outras redes cognitivas afetadas pela demência. Esse fenômeno não reverte a doença, mas pode melhorar temporariamente o estado emocional do paciente e facilitar o contato com cuidadores.
Em pacientes que sofreram AVC e perderam parcialmente a fala, a capacidade de cantar pode permanecer preservada. Isso ocorre porque cantar recruta redes cerebrais diferentes das usadas na fala convencional. A técnica já é usada em reabilitação. No caso do Parkinson, a música age como uma marcação externa que ajuda na coordenação de movimentos. A estimulação auditiva rítmica é usada em programas de reabilitação em vários países, pois melhora a fluidez dos movimentos sem substituir o tratamento farmacológico.
Estudos clínicos mostram que ouvir música durante procedimentos médicos pode reduzir a percepção de dor e a ansiedade. A música escolhida pelo próprio paciente produz efeitos maiores do que playlists padronizadas. Uma mesma canção pode tranquilizar uma pessoa e incomodar outra, pois os efeitos dependem da história de vida, das memórias associadas e do contexto cultural.
Levitin é cético em relação a promessas de frequências "milagrosas" como 432 Hz ou 528 Hz, cujas supostas propriedades curativas não têm amparo em estudos clínicos. O que funciona não é o som isolado, mas a combinação entre ritmo, melodia, harmonia, significado pessoal e memória afetiva. O autor separa o que os estudos mostram com consistência do que permanece especulativo. Há evidências sólidas sobre os efeitos da música na dor pós-operatória, nos sintomas motores do Parkinson e na recuperação de linguagem após AVC.


