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Música: os benefícios para o cérebro e o bem-estar

Por Romances e Leituras · · 3 min de leitura
Música: os benefícios para o cérebro e o bem-estar
Foto: (Divulgação) AUTOR: DANIEL J. LEVITIN/EDITORA OBJETIVA

Poucas experiências atravessam tantos momentos da vida quanto a música. Ela está presente em comemorações, lutos, viagens, encontros e até nas tarefas mais comuns do dia a dia. Uma canção pode despertar uma memória distante, mudar o humor ou fazer o corpo mexer sem que a pessoa perceba.

Nas últimas décadas, a ciência mostrou que ouvir música mobiliza diferentes regiões do cérebro ao mesmo tempo. O processo influencia a memória, as emoções, o movimento e até a percepção da dor. Daniel J. Levitin, professor na Universidade McGill, no Canadá, chegou à neurociência após trabalhar como produtor e engenheiro de som na indústria musical. Esse percurso está no livro “A cura pela música”, que reúne pesquisas sobre como o cérebro processa sons.

Quando uma pessoa ouve música, o corpo reage de várias formas. Não existe um ponto único que processe tudo. O que ocorre é uma ativação simultânea de redes que normalmente funcionam separadas: o córtex auditivo, o hipocampo, ligado à memória, a amígdala, ligada às emoções, o cerebelo e o sistema motor, que respondem ao ritmo, e o sistema dopaminérgico, circuito de prazer e recompensa. O cérebro não ouve música de forma passiva, ele antecipa. Cada compasso gera previsões sobre o que vem a seguir. Quando a expectativa é confirmada ou surpreendida de forma que faz sentido, o sistema de recompensa dispara. É esse mecanismo que produz prazer e, em casos mais intensos, os arrepios.

O livro traz relatos de pacientes com Alzheimer em estágios avançados. Pessoas que não reconhecem filhos e perderam a memória recente ainda conseguem cantar músicas inteiras da juventude. Levitin explica que a memória musical depende de circuitos que permanecem preservados por mais tempo do que outras redes afetadas pela demência. Uma música familiar não precisa de codificação recente para ser reconhecida, porque está gravada em camadas antigas da memória. Esse fenômeno não reverte a doença, mas pode melhorar temporariamente o estado emocional do paciente e facilitar o contato com cuidadores.

Situação parecida ocorre com pacientes que sofreram AVC e perderam parcialmente a fala. Em alguns casos, a capacidade de cantar permanece preservada, mesmo quando produzir frases espontâneas não é mais possível. Cantar recruta redes cerebrais diferentes daquelas usadas na fala convencional. Hoje o canto é visto como uma via alternativa para reaprender a linguagem. No Parkinson, a música age de outra maneira. Muitos pacientes conseguem caminhar de forma mais fluida quando acompanham um ritmo externo constante. O cérebro usa o pulso musical como uma marcação que substitui, temporariamente, o sinal interno comprometido pela doença. A técnica, chamada estimulação auditiva rítmica, já integra programas de reabilitação em vários países.

Estudos clínicos mostram que ouvir música durante procedimentos médicos pode reduzir a percepção da dor e diminuir a ansiedade. A música não desliga a dor, mas age em múltiplos mecanismos: desvia a atenção, reduz os níveis de cortisol e ativa o sistema de recompensa. A música escolhida pelo próprio paciente produz efeitos maiores do que playlists padronizadas. Uma mesma canção pode tranquilizar uma pessoa e incomodar outra. Os efeitos dependem da história de vida, das memórias associadas e do contexto cultural.

Levitin é cético em relação a promessas de frequências “milagrosas” como 432 Hz ou 528 Hz, cujas supostas propriedades curativas não encontram amparo em estudos clínicos. O que funciona não é o som isolado, é a combinação entre ritmo, melodia, harmonia, significado pessoal e memória afetiva. Não existe uma música terapêutica universal. Existem mecanismos biológicos reais pelos quais a música afeta o cérebro, e esses mecanismos respondem de maneiras diferentes dependendo de quem está ouvindo e em que contexto.

Ao longo da obra, o autor separa o que os estudos mostram com consistência do que permanece especulativo. Há evidências sólidas sobre os efeitos da música em dor pós-operatória, sintomas motores no Parkinson, qualidade de vida em pacientes com demência e recuperação de linguagem após AVC. Há evidências promissoras sobre ansiedade, estresse e sono. E há afirmações populares, como playlists que prometem sincronizar os hemisférios cerebrais, que ele examina e descarta. O livro não vende a ideia de que música cura tudo, mas mostra que ela atua sobre mecanismos biológicos reais, capazes de influenciar emoções, memória, atenção e movimento.

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