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Odisseu: um herói atual para os dias de hoje

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Odisseu: um herói atual para os dias de hoje

Quase três mil anos depois de sua criação, a “Odisseia” segue como uma narrativa que atravessa gerações. A nova adaptação dirigida por Christopher Nolan traz o poema de Homero de volta aos holofotes para um público contemporâneo. A história de Odisseu, que passa dez anos tentando retornar para casa após a Guerra de Troia, continua oferecendo formas de pensar experiências como identidade, amadurecimento, perda e transformação.

O psicoterapeuta junguiano e poeta Thiago Domingues lê a obra como uma metáfora da vida. “Em termos metafóricos e psicológicos, estamos sempre voltando para casa. Essa casa, porém, não é apenas um lugar físico. É a lenta descoberta de quem somos quando deixamos de estar completamente identificados com os papéis que desempenhamos ao longo da vida.”

Para ele, o que torna a “Odisseia” um clássico vai além da adaptação recente. Ao ler a “Ilíada” e a “Odisseia” em sequência, ele observa dois momentos de uma mesma trajetória. A primeira narra o auge do herói. A segunda acompanha o que acontece quando essa identidade já não responde sozinha às exigências da vida. “A maior batalha de Odisseu não é contra exércitos ou monstros, mas contra a difícil tarefa de estar identificado apenas com o herói. O retorno a Ítaca simboliza a passagem para uma nova etapa da existência, na qual a persona heroica começa a revelar seus limites.”

Odisseu chora diversas vezes ao longo do poema. Para Thiago, esse aspecto ajuda a compreender a ideia de heroísmo construída por Homero. “Algumas adaptações contemporâneas preferem heróis que não choram porque ainda confundimos força com invulnerabilidade. Homero parece sugerir justamente o contrário: é a capacidade de sofrer, de sustentar a tensão e dar vazão às suas emoções, de reconhecer os próprios limites e, apesar disso, continuar a travessia que torna alguém verdadeiramente humano.”

Durante a viagem, Odisseu perde os títulos que sustentavam sua identidade. Torna-se náufrago, estrangeiro e mendigo antes de voltar a ocupar o lugar de rei. Thiago aproxima esse percurso do conceito junguiano de individuação: o processo de integrar aspectos da personalidade que permanecem à margem quando uma única função passa a definir quem somos. O herói continua existindo, mas deixa de ocupar sozinho o centro da vida psíquica.

Os obstáculos enfrentados por Odisseu não são desvios da jornada, segundo o psicoterapeuta. “Eles são a própria jornada. Também em nossa vida, aquilo que mais nos transforma raramente coincide com aquilo que havíamos planejado. É nos desvios que descobrimos recursos que desconhecíamos possuir e somos convidados a abandonar imagens idealizadas sobre o mundo e nós mesmos.”

Essa leitura dialoga com um tempo em que eficiência e rapidez costumam ser tratadas como sinônimos de sucesso. Na “Odisseia”, os desvios não interrompem o caminho, são eles que transformam o personagem. A tentativa de eliminar tudo o que escapa ao planejamento também reduz a possibilidade de mudança. Thiago recorre a Cronos, o deus do tempo, para aprofundar essa ideia. “Cronos recorda continuamente ao ser humano sua condição mortal. O tempo reduz a ilusão de onipotência, relativiza nossos triunfos e nos convida a descobrir um modo mais amplo de existir.”

Thiago também lê alguns personagens da “Odisseia” como imagens simbólicas de conflitos humanos. Penélope representa a espera e a dificuldade de encerrar um ciclo. Telêmaco vive o desafio de crescer na ausência do pai. Figuras como Circe, Calipso e as Sereias colocam Odisseu diante da tentação de interromper a própria jornada.

Mesmo depois de retornar a Ítaca, o herói não abandona completamente a identidade construída ao longo da viagem. Para Thiago, isso revela que o amadurecimento não elimina aspectos da personalidade, mas amplia a forma como nos relacionamos com eles. “É como se o arquétipo heroico reaparecesse sob outra forma, lembrando que nenhuma transformação elimina definitivamente nossas tendências mais profundas. A individuação para Jung não consiste em destruir o herói, mas em impedir que esse arquétipo monopolize a personalidade.”

O percurso de Odisseu não termina quando ele chega a Ítaca. O retorno marca o início de uma nova etapa, em que as experiências vividas passam a fazer parte de quem ele se tornou. É durante a travessia que Odisseu perde certezas, explora o mundo, enfrenta limites e constrói outra relação consigo mesmo. A transformação acontece ao longo do caminho, não apenas quando ele finalmente volta para casa. Para Thiago, essa é uma das razões pelas quais a obra continua encontrando leitores. “A Odisseia narra o difícil retorno de cada um de nós à própria humanidade.”

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