Proibido pisar na grama: entenda por que a regra persiste

O psicanalista José Milton Castan Junior reflete sobre as origens das proibições que carregamos desde a infância. Ele lembra que, aos sete ou oito anos, viu em um parquinho uma placa com os dizeres "proibido para maiores de sete anos". Para ele, essa foi a primeira vez que uma imposição não veio dos pais ou professores, mas do mundo.
Castan observa que as placas nunca anunciavam o que era permitido. Desde cedo, a comunicação recebida tende a vir no formato negativo, como um contorno desenhado por aquilo que não se pode fazer. Frases como "menino não faça isso" e "agradece sua tia" vão se acumulando e moldando um repertório de regras que precisam ser cumpridas sob ameaça implícita de punição.
O psicanalista compartilha uma memória marcante desse processo. Na escola, ele sentiu um enorme desejo de pedir Helena, a menina mais linda da escola, em namoro. No entanto, o medo de ser rejeitado por ser um "fora dos normais" em uma escola elitizada o impediu. Ele vivia escondendo a manga amarela puída do seu blusão. A barreira, nesse caso, não veio de uma placa visível, mas de uma diferença de classe internalizada como vergonha.
Castan recorre a Freud para explicar a lógica por trás desses episódios. Em "Além do Princípio do Prazer", Freud descreve a busca pelo prazer e a fuga da dor como o eixo que organiza o comportamento humano. É essa equação, ajustada pelo que cada um aprendeu, que decide o que vamos perseguir e o que vamos evitar pelo resto da vida.
Limite e repressão
Castan faz uma distinção entre limite e repressão. Para ele, os limites são organizadores da sociedade, como o farol vermelho do semáforo. Sem eles, o egocentrismo natural pode prejudicar o outro. Já a repressão tem um caráter punitivo e de cerceamento de direitos. A diferença não está no desconforto que ambas provocam, mas na função que cumprem: um sustenta o convívio, o outro apenas reduz alguém.
Barreiras internas
O psicanalista também aborda as barreiras que erguemos sozinhos. Ele usa o conceito de "mensagens bruxas" para descrever frases repetidas na infância que moldam reações automáticas na vida adulta. Uma criança que ouviu "você fala demais" pode internalizar que falar não é bem-vindo. Anos depois, ao se ver diante de um microfone, a pessoa reencontra o eco daquela mensagem antiga, sem nenhum sinal visível para quem está de fora.
A culpa como sinal
Sobre a culpa, Castan diz que não há uma resposta única. Se um desejo legítimo trouxer prejuízo, a culpa pode servir como aprendizado. Há também o caso do desejo ilegítimo, em que a dor nasce da transgressão de regras sociais. O terceiro caso, o mais comum nos consultórios, é quando o desejo é legítimo e não trará dano real, mas a pessoa ainda assim se sente culpada.


