Por que é proibido pisar na grama?

Uma reflexão sobre as regras que nos cercam desde a infância e como elas moldam nossas escolhas, desejos e medos, mesmo quando não há uma proibição explícita. A pergunta que dá título ao texto, inspirada na música de Jorge Ben, vai além do literal e questiona o que nos impede de agir.
O psicanalista José Milton Castan Junior lembra que a primeira vez que se deparou com uma regra vinda do mundo, e não de seus pais, foi aos sete ou oito anos, ao ver uma placa em um parquinho que dizia "proibido para maiores de sete anos". Ele observa que as placas nunca dizem o que é permitido, apenas o que não se pode fazer. Essa comunicação negativa, segundo ele, organiza o psiquismo desde cedo, acumulando normas e imposições culturais e religiosas em um repertório pessoal de regras a serem seguidas sob ameaça de punição.
Castan conta outra história marcante: na escola, ele queria pedir Helena em namoro, mas o medo de ser rejeitado por ser de uma classe social diferente o paralisou. Não havia uma placa visível, mas a diferença de classe, internalizada como vergonha, foi uma barreira suficiente para travar seu desejo. Ele explica que, segundo Freud, a busca pelo prazer e a fuga da dor organizam o comportamento humano, e essa equação é ajustada pelo que cada um aprendeu ao longo da vida.
O psicanalista distingue limite de repressão. Limites, como o farol vermelho, são organizadores da sociedade e sustentam a convivência. Já a repressão tem caráter punitivo e inibitório, cerceando direitos. A diferença não está no desconforto que causam, mas na função: um protege o convívio, o outro apenas reduz alguém.
Castan também fala sobre as barreiras que erguemos sozinhos, a partir da interpretação que damos aos fatos. Ele usa o conceito de "mensagens bruxas" para descrever frases repetidas na infância, como "você fala demais", que moldam reações automáticas na vida adulta. Anos depois, ao se ver diante de um microfone, a pessoa reencontra o eco daquela mensagem antiga, sem perceber.
Sobre a culpa, ele a divide em três cenários. No primeiro, a culpa surge quando um desejo legítimo traz consequências negativas, funcionando como um instrumento de aprendizagem. No segundo, a dor vem de transgredir uma regra da sociedade. O terceiro caso, o mais comum nos consultórios, é quando o desejo é legítimo e não trará danos reais, mas a pessoa se sente culpada apenas por ter o desejo.


